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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Presidente ou presidenta? O iG esclarece a dúvida

Linguistas explicam a correção da palavra presidenta e mesmo a oposição vê no seu uso uma evolução dos costumes

A palavra “presidenta” existe na língua portuguesa desde 1872. E desde 1925 ela consta como verbete do dicionário Caldas Aulete, revela, com exclusividade para o iG, um estudo feito pelas lexicógrafas Marina Baird Ferreira e Renata de Cássia Menezes da Silva, da equipe do dicionário Aurélio. Mas quase um século depois de ser dicionarizado, o substantivo feminino de presidente ainda causa estranhamento e leva muitos leitores do iG, que adota o uso do termo, a questionar sua correção ortográfica.

O principal argumento contra o uso de presidenta se baseia no fato de que na língua portuguesa existem os particípios ativos como derivativos verbais. Assim, quem ataca é “atacante” e não “atacanta”, mesmo em uma partida de futebol feminino. Dessa forma, o particípio ativo do verbo ser, que é “ente”, também não permitiria a flexão de gênero. Ela se daria apenas pelo artigo feminino que antecede a palavra.

Portanto, a forma correta, segundo essa teoria, seria sempre a presidente, como é a estudante ou a gerente. “Não existe estudanta porque ninguém reivindicou”, diz o linguista Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília. “Mas à presidenta, por ser um cargo único e muito importante, é mais do que justo que seja dado este direito.”

De acordo com as lexicógrafas Marina Baird Ferreira e Renata de Cássia Menezes da Silva, a origem de presidenta prende-se, é claro, ao vocábulo presidente, mas não por flexão e, sim, por derivação. “Houve a substituição da vogal temática (-e) pela desinência formadora do feminino em português (-a). Fato que se deu por analogia com inúmeras outras palavras da língua, como chefa e governanta”, escreveram elas no estudo publicado agora pelo iG.

Para elas, não se trata de exceção, mas de uma possibilidade reconhecida pela história da língua. “Tal processo é possível no nosso idioma desde sempre, como se vê no substantivo feminino infanta, registrado na língua desde o século 13”, diz o parecer das lexicógrafas.

Para o professor da Universidade de Campinas Sirio Possenti a discussão é absurda. “Você tem um dicionário bom aí? Então, pronto”, responde à reportagem. Segundo ele, os termos “correção e aceitabilidade” não são universais, pois envolvem cultura ou política. “É correto? Pelos critérios das gramáticas e dos dicionários, sim. Mas é curioso que os que apelam para gramáticas para criticar “os livro” não aceitam as gramáticas quando abonam presidenta”, diz.

Possenti se refere à polêmica causada por um livro utilizado em 4.236 escolas públicas do País que considera como válida a expressão “nós pega o peixe”. Se outras palavras que ganharam o feminino por derivação, como mestra, monja, governanta e infanta não causam a mesma estranheza, qual o problema com a palavra presidenta?

A primeira resistência de muitas pessoas está na sonoridade. Como até hoje foi uma palavra pouco pronunciada, presidenta enfrenta uma barreira natural a ser superada pelo costume. Na Argentina, Cristina Kirchner prefere ser chamada de “presidenta” ou ainda “chefa de Estado”. No site da Casa Rosada, sede da Presidência argentina, ela é sempre tratada como “presidenta”.

Mas lá, talvez por já ter tido outra presidenta, a palavra não suscita o mesmo debate: praticamente todos os veículos de comunicação a adotam, mesmo os jornais de oposição, como o Clarin, chamam Cristina Kirchner de “presidenta”. “Os argumentos contrários (à palavra presidenta) podem vir da sua conotação política ou feminista”, diz o professor Possenti. “Se se tratar de problemas “de ouvido”, há duas soluções: ler mais ou ir ao otorrinolaringologista”.

De fato, menos de um ano depois do discurso da vitória de Dilma Rousseff, quando ela se anunciou publicamente como presidenta eleita, gerando a primeira onda de debates sobre o tema, a palavra começa a cair na rotina. Entre os políticos, poucos são os que não usam “a presidenta” (ou pelo menos não a usam ocasionalmente). A grande maioria o faz de forma natural, como o governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB). Mas outros dão a ela um sentido irônico, como um cacique do PMDB, descontente com Dilma, que se refere a ela como “essa presidenta”.

No mesmo PMDB, tanto o vice-presidente Michel Temer como o presidente do Senado, José Sarney, integram a lista dos que hesitam entre “presidente” e “presidenta”. Sarney já levou até bronca da senadora Marta Suplicy (PT-SP), primeira vice-presidenta do Senado. Em fevereiro, Sarney chamou Dilma de “presidente” e Marta pediu para corrigi-lo. "Pela ordem! É presidenta", disse em plenário. Já o vice-presidente Temer chama Dilma de “presidenta” quando se lembra, segundo seus assessores. Na maioria das vezes, contudo, diz “presidente”.

“Sou contra o uso, embora ache legítimo, porque tem um sentido político, não partidário com o governo, mas em relação à posição feminista”, diz o professor de linguística da Universidade Federal do Paraná Bruno Dallari. Dallari acrescenta que considera ruim quando “presidenta” é usado de forma isolada, apenas para tratar de Dilma Rousseff. “Se a flexão fosse atribuída a todas as funções com a mesma terminação, como assistenta ou gerenta, seria uma reforma maior”, afirma.

Provavelmente a língua portuguesa não sofrerá tamanha reforma. Mas a popularização da palavra presidenta e o seu significado político estão vencendo outras barreiras.

No PSDB, maior partido de oposição ao governo federal, a deputada estadual de São Paulo Maria Lúcia Amary defende o uso do gênero feminino. Presidenta da Comissão de Constituição de Justiça da Assembleia Legislativa, Maria Lúcia diz que o uso de “presidenta” é uma forma de as mulheres ocuparem mais espaço na política, com maior visibilidade.

A tucana não acredita que o tratamento “presidenta” signifique alinhamento com o governo Dilma. “Desde que a presidenta Dilma foi eleita, existe uma tendência a forçar esse tratamento. Eu gosto da expressão pela questão da luta pelo gênero feminino. A briga partidária fica em segundo lugar”, afirma. Das 15 comissões da Alesp, apenas a CCJ tem uma mulher na presidência.

“As pessoas que são contra o termo presidenta estão defendendo um machismo ou colocando partidarismo em uma questão linguística”, afirma o linguista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília.

Pioneirismo

A chegada de mulheres ao poder nas últimas décadas resultou não apenas na adoção do gênero feminino para a descrição de cargos públicos, como também em adaptações de protocolo e cerimonial. As mudanças ocorreram, por exemplo, quando Luiza Erundina (PSB-SP) tornou-se a primeira mulher a comandar a Prefeitura de São Paulo, em 1988. O mesmo aconteceu nove anos antes no Senado. Em 1979, a amazonense Eunice Michiles foi a primeira senadora eleita no Brasil.

A senadora Lídice da Mata (PSB-BA), que atuou como deputada na Constituinte entre 1987 e 1988, lembra que na época não havia, no plenário, banheiro privativo para as parlamentares, mas apenas para os parlamentares. Em seu site, a senadora relata o preconceito que enfrentou. “Nós chegamos num Congresso que não tinha sequer banheiro feminino. O plenário só tinha banheiro de homem, um banheiro único porque a presença da mulher era tão minúscula que não se fazia necessário esse tipo de equipamento”.

O iG concorda com os linguistas que entendem o português como uma língua viva, capaz de incorporar novas expressões de acordo com as transformações da sociedade. Além disso, em todas as cerimônias públicas, a ordem do cerimonial é tratar Dilma como presidenta. Adotar “a presidente” levaria o leitor a ver duas formas de tratamento quando o iG transmitisse eventos oficiais ou publicasse algum discurso presidencial com referência ao termo. Por isso, as reportagens se referem a Dilma Rousseff como “presidenta”.

Mas o uso diário do termo que há 139 anos consta da língua portuguesa e há mais de oito décadas faz parte da norma culta não implica qualquer alinhamento partidário. Da mesma forma que os veículos que preferem usar “a presidente” não estão fazendo campanha contra Dilma, adotar o termo “presidenta” não significa ser oficialista.

Fonte: Último Segundo / IG

sábado, 18 de junho de 2011

Inculta e bela

P. PERINI-SANTOS E B. VIANNA
Doutores em linguística (UFMG)

Publicado no Jornal OTEMPO em 16/06/2011

Linguistas por formação e ofício, sentimo-nos no dever de comentar sobre os ditos erros no livro de português que o MEC avalizou. Vamos explicar de forma simples para que o Clóvis Rossi, o Merval Pereira, o Arnaldo Jabor, a Viviane Mosé, o Milton Jung, o Alexandre Garcia, o Carlos Monforte, o Reinaldo Azevedo e o Cristovam Buarque entendam.

O livro "Para uma Vida Melhor" fala sobre algo que acontece em todo país: as pessoas são julgadas pelo jeito como falam. Isso se chama preconceito linguístico e tem consequências graves.

Vítimas de preconceito linguístico, muitas pessoas deixam a escola, abandonam consultas médicas e reivindicações trabalhistas e não conversam com os filhos e colegas de trabalho.

Quando nos sentimos constrangidos pela fala, nos calamos e sofremos com isso. O termo "norma culta" é tão absurdo quanto falar de "bairros nobres" por supor o oposto e, a esse oposto, atribuir valores negativos.

Nada mais sendo variável (um problema neurológico ou emocional extremo), todo jovem aprende a variante linguística de sua família e comunidade. Esse é um fato linguístico. E escrita não é língua, mas um sistema normatizado de codificação que abarca uma ou mais variantes da língua.

A escrita difere da língua falada nos mais variados aspectos, inclusive da variante padrão.

A escola deve ensinar aos alunos um padrão normativo nacional, mas não há como um linguista sensato falar que erros de concordância (como "os bicho") sejam ataques à gramática da língua portuguesa do Brasil. Isso é uma ocorrência linguística que faz parte do nosso uso corriqueiro.

O resultado educacional do preconceito linguístico aí está: crianças aprendendo que sua família e amigos "falam errado", o que gera problemas para a vida toda. Considerar a fala espontânea, as variações regionais e pessoais é o melhor caminho para amadurecer o uso do texto escrito e oral. As pessoas já se expressam bem, e os desafios escolares são ajudar os alunos a utilizar a variante padrão no contexto adequado, adequar o texto oral à forma escrita, aprender a interpretar e argumentar a partir da leitura dos textos e amadurecer a consciência de que a gente deve se expressar do jeito apropriado à situação comunicativa que se vive.

Manifestações gramaticais prescritivas, como as que ocorreram na mídia, geram agressividade e aumentam a arrogância com que tratamos as pessoas que se desviam do modelo padrão. Uma simples pitada de diferença no uso da fala, citada no livro, justificou uma violência verbal de dimensões histéricas.

Os intelectuais que nomeamos acima não entendem bulhufas de linguística. Erram na terminologia técnica e na interpretação do texto do livro, não conhecem a literatura científica, distorcem informações e não têm formação apropriada para falar sobre o tema. As consequências de sua fala são graves, pois eles são formadores de opinião. Além de errada, a opinião por eles divulgada é nociva.

Sugestão de Nélio Azevedo

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nein tudu qui si lê é u qui si fala

Por Nélio Azevedo

imageA polêmica criada pela frase com o português escrito de forma errada, no livro didático de gramática e, aceita por uns e contestada por outros; fez com que eu me lembrasse de algumas aulas de português ministradas pela saudosa professora Dona Guiomar.

Ela demonstrava um respeito e um amor pela Língua Mater de fazer inveja e suscitar em nós um desejo de conhecer e de repetir seu nobre gesto. Não se esqueçam de que a língua foi um dos marcos da fundação de quase todos os Estados Modernos da Europa, juntamente com a fé religiosa e a etnia, portanto, deveríamos ter orgulho da nossa língua e, defendê-la dessas esquisitices tão comuns hoje em dia. Nas aulas de análise fonética, víamos claramente que não se fala como se escreve, nem por isso falamos de forma errada. Lembro-me do vocábulo “MENINO” que quase todo mundo pronuncia “MININU”.

O Brasil tem uma área territorial equivalente a da Europa, onde se falam tantas línguas e tantos dialetos, seria mais do que natural que aqui também se falassem de forma tão variada, com tantas influências de outros idiomas, já que temos cidades e regiões onde estrangeiros dominaram por muito tempo; como foi o caso de São Luís, Recife, Rio de Janeiro; isto sem contar as regiões de fronteiras onde há uma mistura dos idiomas português e espanhol.

Estados onde foram recebidos grandes contingentes de estrangeiros a influência na cultura, principalmente, na língua produziu verdadeiros dialetos por conta de tantos regionalismos e expressões idiomáticas. A coisa mais comum hoje em dia é ouvir as operadoras de call-center, com aquele indisfarçável sotaque paulistano dizer que “vamos estar fazendo”, ou um tal “obrigado, eu”, revelando uma triste violação da língua que alguns menos letrados insistem em copiar; e, não vou nem falar desse novo idioma cibernético que apareceu com o advento da Internet.

Paulista não sabe o que significa o “r” no início da frase ou o “rr” que deveria ser lido e falado de forma diferente; para eles a palavra MURO e MURRO; CARO E CARRO, são a mesma coisa. Eles falam mal o português ou de forma errada ou é simplesmente outra forma de se falar, impregnada de influência italiana?

É um caso a se pensar essa polêmica toda em torno da língua, ela não é diferente dos problemas que surgiram nos encontros e reuniões sobre os acordos a respeito da unificação da língua portuguesa. Fico com pena dos espanhóis que fazem troça deles quando dizem que o espanhol é o português mal falado, com suas gaviotas e cocodrilos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Polêmica ou ignorância?

Marcos Bagno
Universidade de Brasília
www.marcosbagno.com.br

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais
uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no
mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página
e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do
que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente
convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da
informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais
de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no
mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema
da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de
petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira
e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos
de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da
variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua
viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem
transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma
comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os
alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer
no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro,
com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas
mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu
modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é
apenas uma língua diferente daquela — devidamente fossilizada e conservada
em formol — que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo,
principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de
comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias
inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do
conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as
colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua
em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de
conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam
eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em
perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e
entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o
branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e
por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do
macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se
originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não
interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido
como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha
obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da
candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse
ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais
distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados
em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais
vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não
significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade
linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao
mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola
ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso
repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”,
porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz
parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso
ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da
gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda
servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é
dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles — se
julgarem pertinente, adequado e necessário — possam vir a usá-la
TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores
não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme,
que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem
101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três
gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é
ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que
a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles
acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das
Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa
pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe
devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?

Baixe o 1º Capítulo do Livro AQUI

terça-feira, 5 de abril de 2011

Essa língua é mesmo muito criativa!

Pergunta:

Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão "no frigir dos ovos"?

Resposta:

Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem ideias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.

E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese... etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco...

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.

Autor desconhecido

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ENSAIO SOBRE UMA REFORMA ORTOGRÁFICA GERAL E DEFINITIVA DO PORTUGUÊS

José Aristides da Silva Gamito*

Ampliando a discussão do artigo “O futuro da Língua Portuguesa” postado no blog Pascoal Online, em 9 de fevereiro de 2011, torno público um estudo que realizei há muito tempo sobre a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa. É uma proposta de adotar uma ortografia fonética que reduziria bastante as dificuldades que aparecem durante o processo de alfabetização. Os puristas não aceitariam uma reforma muito artificial, por isso, elaborei um modelo com base na tradição fonética e ortográfica das línguas neolatinas e do próprio latim. A língua Esperanto possui uma ortografia totalmente fonética e já está comprovado que ela é um das línguas mais fáceis de ser aprendida por causa disso. Já houve propostas oficiais de uma reforma assim tanto para o português quanto para o espanhol.

1. O til permaneceria cobrindo todos os sons nasais, inclusive das desinências da terceiras pessoas das conjugações verbais. Som (sõ), fizeram (fizerão).

2. O Q seria abolido. O C seria adotado para representar todos os sons duros. No latim clássico, ele representava este som. Casa (casa), quero (cero). As formas como quarenta, onde soa o u do qu, seriam também substituídas pelo C, portanto, cuarenta. Como faz o espanhol, em muitos casos. O K e o Q seriam abolidos por serem raros dentro da tradição latina.

3. A letra S substituiria todas as sibilantes como SS (pássaro), C (cena), SC (nascer), Ç (cabeça), X (próximo, sexta), Z (rapaz). Escreveríamos pásaro, sena, cabesa, prósimo, sesta. O espanhol possui um procedimento semelhante com o S.

4. O Z assumiria todos os sons de z como o do S (rosa), X (êxito). Grafaríamos assim: roza e êzito.

5. O G seria sempre duro, sem necessidade do uso u diante de E e I. Gama (gama), guerra (gerra).

6. O J representaria os sons dele mesmo e do G diante de E e I, como em gesto (jesto), gênero (jênero).

7. O H sem som seria eliminado. Como já acontece por força da tradição com a palavra erva, em latim escreve-se herba. O h só existe em português por razões etimológicas. Durante a história, variou-se muito o uso desta letra.

8. O H representaria o som do R e RR guturais e o R representaria o som rolado. Já que no latim clássico e no grego o h já teve som aspirado. Rapaz (hapas), caro (caro). Suprimir-se-ia o R final dos infinitivos.

9. O X representaria os sons de ch(chapéu), x(xarope). Porém, o som do x em exemplo (seria ezemplo) e em sexo (seria secso).

10. O LH seria trocado pela duplicação do ll como no espanhol. Galho/gallo.

11. O NH por uniformidade também se duplicaria, nn. Galinha/galinna.

12. O L final com som de U seria trocado pelo seu correspondente. Teríamos cal (cau), animal (mau). Isso de fato já aconteceu com a palavra mau que vem do latim malu.

13. Os acentos gráficos não seriam abolidos porque representam uma vantagem para a leitura. Apenas a regra seria uniforme: Acentuar-se-iam todas as proparoxítonas e todas as oxítonas e nenhuma paroxítona, porém, acentuar-se-iam os hiatos e monossílabos. A língua Guarani possui um modelo de acentuação gráfica semelhante.

Para uniformizar a ortografia e torná-la mais lógica, vários modelos são possíveis. Neste, eu tomei como referência exemplos de emprego das letras dentro do latim e das línguas neolatinas. A concessão mais radical que fiz foi usar o h no lugar do r gutural. Às vezes, se leva propostas como essa como comédia, mas seria uma solução radical para resolvermos o problema da ortografia. Um modelo mais exótico que esse seria muito mais difícil de ser aceito. As pessoas são muito apegadas ao costume. E encaram o novo com repugnância. Com tempo, realmente, tudo se encaixaria. A grafia da internet já nos ajuda a não estranhar tanto uma ortografia assim.

Encerro demonstrando como ficaria o artigo 1º da Declaração dos Direitos Humanos “Todos os seres umanos nasem livres e iguais ẽ dignidade e ẽ direitos. Dotados de razão e de consiensia, devẽ agi ûs para cõ os outros ẽ espírito de fraternidade” (“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”). É uma diferença aceitável.

*Filósofo e especialista em Docência do Ensino Básico e do Superior.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O futuro da Língua Portuguesa

Embora seja mais virado para o público brasileiro também dá perfeitamente para ser adoptado por nós portugueses.

E até já ficava o acordo ortográfico feito de uma vez por todas!

Eis aqui um programa de cinco anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica.

Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo.

Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

No primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S" e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S" suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU" em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika .

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X" e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe.

Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G" em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de eskrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu? os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us adivogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.

Fonte: Blog Prof. DiAfonso