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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Maytê

Por Jaeder Teixeira Gomes

Ela fez tudo direitinho. Soube esperar e trabalhar sua própria estrutura no ninho materno, construindo com maestria cada detalhe para que se tornasse uma menina perfeita, em conformidade com a natureza. Tudo andou bem no binômio feto-útero, até o momento em que dependeram de uma terceira força que deveria vir do mundo exterior. Fracassaram, se atrapalharam e, se não lhe roubaram a vida, roubaram-lhe a vitalidade e a mobilidade a que teria direito.

Hoje, com quatro anos de vida, Maytê dá aulas de sabedoria a quem se permite observá-la. Reflete para nós aquela luz rara e autêntica que brota de sua alminha intocada. Seus movimentos desdenham das contorções e pinotes elétricos das crianças da sua idade e se limitam a pacientes manobras naturais. Os fragmentos de palavras que já consegue balbuciar, ditados pela cumplicidade incondicional dos seus pais, são verdades inteiras de uma sabedoria interior, que não encontram unidade de medida no nosso mundo surreal. O seu olhar é uma pergunta incapaz de ser traduzida e processada no nosso reduzido código de vocábulos. O observador, na completa impossibilidade de decifrar seus recados etéreos, se vê irremediavelmente transportado com ela a um mundo de paz. Paz inquietante, já que vem desalojar fardos de inúteis conceitos, colocados à força dentro do nosso discernimento elástico. E nós, que buscamos incansavelmente uma competência baseada na força, recebemos dela este recado de atalho a nos ligar diretamente à fonte de toda sabedoria, todo objetivo, toda vida.

Felizes papais Dário e Juliana, por viverem constantemente com Maytê nesta redoma refratária aos expedientes rasteiros. Feliz cada um de nós que, entre os progressos e os tropeços, descobre em si mesmo a sua própria Maytê.

Conto extraído do livro “Pelo Buraco da Fechadura”, do escritor e poeta Jaeder Teixeira Gomes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Bom Dia, Doutor

Conto extraído do livro "Pelo Buraco da Fechadura", de autoria do poeta e escritor Jaeder Teixeira Gomes.

BOM DIA, DOUTOR

O doutor vinha pelo corredor do Pronto Socorro em sentido contrário ao meu. Como é imperioso nessas situações, aguardei o momento em que nossos olhares se cruzariam para cumprimentá-lo, ainda que fosse com um trejeito de cabeça ou um corrugar de testa. Surpreso constatei, porém, que ele preferiu ao meu cumprimento, observar o voo da sua mosca imaginária no espaço à sua frente.

Senti-me como que de mão estendida, segurando um doce que se oferecia. Fosse um maltrapilho qualquer a se comportar dessa forma, julga-lo-ia tímido, adjetivo que não costumamos emprestar a nenhum cidadão bem sucedido na vida. Mas o estereótipo não é o tema em questão e ficará para outra oportunidade.

Nossas ideias precisam do cruzamento com a dos nossos semelhantes para vingarem e darem bons frutos. Sozinhas, tornam-se híbridas, geneticamente inúteis. Daí a nossa vocação natural para a interação social. A vida não tem a consistência firme e definitiva da batata, mas a dinâmica brincalhona da cebola. Nossa história vivencial é construída com a sobreposição de momentos e ignorar as oportunidades é empobrecê-la definitivamente. O meu doutor não teve tempo para o meu “Bom dia”. Teria ele em mente um complicado tratado de medicina ou a evolução clínica dos últimos pacientes? O certo é que ele ignorou solenemente a minha presença, em dissonância com a forma cordial de clinicar.

Os corredores da vida são generosos e não medem nossas oportunidades. Daqui a pouco eles nos colocam frente a frente de novo, só para ver como evoluímos. Aí então, poderemos ter uma crônica a menos e dois sorrisos a mais.

Capa_Jaeder