Por Nélio Azevedo
Os textos encontrados na Bíblia teriam sido escritos por homens assistidos pelo Espírito Santo de Deus, alguns deles levaram a vida obedientes aos ditames da tradição e dos valores que se tornaram a base do Cristianismo e das religiões criadas ao longo dos séculos desde que Lutero se rebelou contra os descaminhos perpetrados pelos clérigos católicos. Esses homens foram santificados e se tornaram uma espécie de porta-vozes dos pobres humanos diante do Todo-Poderoso.
Curiosamente, alguns não foram santificados, apesar de terem tido uma importância crucial na formação do pensamento e da fé cristã, Moisés e os Profetas mais antigos são alguns deles. Durante esses séculos outros cristãos devotos se tornaram doutores e teólogos respeitados, Santo Agostinho, São Paulo, São Francisco e uma infinidade de gente que engrossaram as fileiras dos santos católicos. Alguns se tornaram padroeiros (ou padrinhos) no melhor estilo dos padrinhos mafiosos, adotando cidades e nações, tendo inclusive se tornado proprietários de inúmeras propriedades que vão desde fazendas até cidades inteiras, isso, sem contar as fortunas herdadas de devotos cristãos que transferiram seus bens terrenos para a causa da Igreja. A Causa dos Santos é um importante segmento do Vaticano e leva muito a sério essa questão, ao ponto do Papa João XXIII ter nomeado mais santos do que todos os outros papas juntos, até santo brasileiro vai ter. Ninguém estranha o fato de nunca ter tido nenhum santo nem papa brasileiro, mesmo sendo o maior país católico do mundo.
As religiões evangélicas e outras correntes e seitas se tornaram intransigentes nessa questão do reconhecimento da santidade desses homens, chegando ao absurdo de proporem a mudança de nomes de importantes ruas e avenidas de Belo Horizonte, como a tradicionalmente conhecida Avenida Nossa Senhora do Carmo e Rua Nossa Senhora da Paz, retirando a palavra “Nossa”. Agora empreenderam uma luta contra a poderosa Rede Globo, por causa da novela Salve Jorge, que evidencia o nome do Santo Católico conhecido e venerado no Rio de Janeiro, São Jorge. Soldado nascido na região da Capadócia, na Turquia no período de ocupação pelos romanos, esse soldado teria sido uma espécie de Herói da causa e seguidor dos ditames cristãos; teria vencido o Dragão da maldade existente na humanidade. Nada me tira da cabeça que essa implicância seja com a figura produzida pelo sincretismo religioso que deu aos umbandistas a figura de Ogum. Não é de hoje que os evangélicos combatem sem o menor respeito às religiões afro-brasileiras, pregando abertamente uma guerra sem tréguas contra essas crenças, como se a deles fosse a única verdadeira religião.
Lembro-me de ter visto em um fascículo da revista Sentinela uma matéria sobre a recomendação aos seus adeptos de não praticarem a capoeira, pois ela rendia homenagens a outros deuses, que não ao deus único. (se fosse único não teriam outros). Nas escolas de orientação protestantes e batistas, as tradicionais e brasileiríssimas Festas Juninas foram banidas ou transformadas em Festas Country, no estilo americano; desfigurando a nossa cultura e impondo costumes e tradições de outros povos, tudo porque elas são festas que homenageiam os Santos católicos São Pedro, São João e Santo Antônio, mesmo que a origem seja anterior à criação destas religiões e sejam manifestações de agradecimentos aos santos padroeiros pelo sucesso nas colheitas de grãos tão necessários à vida quanto o pão diário da fé.
Valha-nos, Nossa Senhora da Pena! Valei-nos, São Jorge! Orim Axé, Irê Xiré!