Por Jaeder Teixeira Gomes*
O rapaz resolveu brincar de matar crianças. Pegou suas armas, com elas tirou sua própria mãe do caminho e se dirigiu à escola onde ela trabalhava. Lá, foi abatendo os garotos, enquanto teve munição, reservando apenas a última, para si mesmo.
Após a digestão da surpresa, a reação mais urgente da sociedade é rotular esse indivíduo e isolá-lo para que se transforme numa figura excêntrica e única, o que lhe devolve, não a paz, mas a acomodação necessária à retomada da rotina.
Entendemos os comandos de um veículo e procuramos mantê-los em bom funcionamento, mas não damos a mesma atenção ao cérebro humano, onde nascem todas as nossas atitudes. Brincamos com o nosso cérebro e o mantemos sobrecarregado com entulhos conceituais que ele não entende como tal e se esforça por processá-los.
Desprezamos as manifestações do cérebro, exigindo que ele trabalhe estrangulado a fim de atender a nossas fantasias e até nos divertimos com seus pequenos descuidos. Mas quando ele se engana de verdade, seu hospedeiro é discriminado, classificado como demente e isolado. Às vezes pode ser antes de um prejuízo maior, às vezes não.
Penso que o cérebro é o portal do espírito. É ele que seleciona, aprova ou desaprova, permite ou contém, abomina ou crê. É nele que mora o discernimento que opera o homem. O resto é engenhoca. Como o cérebro sabe que somos movidos por impressões mais diversas e furtivas, ele não entende imediatamente o nosso comportamento como um padrão a ser oficializado. Mas se lhe damos uma ordem de forma continuada, ele assimila como um padrão urgente e confiável e passa a usá-lo como modelo para seus comandos, desconhecendo outros conceitos formatados na sociedade em que vivemos.
*Escritor e Poeta