quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Futuro de uma Indução

Atendendo a um questionamento do leitor José Henrique Fialho, nos comentários sobre o post  "Crenças são apostas que nos aliviam. Toda "crença" merece respeito exatamente porque nenhuma crença merece "respeito", no qual José Henrique sugere ao autor porque ele, como psicanalista, a propósito, não analisa o texto de "O Futuro de uma Ilusão" para seus leitores do Pascoal on Line, questionando seus argumentos, o psicanalista Lázaro Freire postou o esclarecimento abaixo, que, devido à importância do seu conteúdo, decidimos publica-lo como um post para uma maior abrangência.

"Oi, Pascoal. Pedido seu pra mim é ordem, li os comentários em seu blog mas não consegui postar lá via iPhone. Aí vão meus comentários ao leitor acima e a outros que li no blog:

Olá, José Henrique.

Sou mais winnicottiano e junguiano que freudiano. E estou (nesse momento, por ex) na Filosofia do Seminário Paulopolitano.

Minha visão pessoal é crítica e reflexiva, pensando o pensar - como compete à função lúcida e luciferiana dos filósofos e psicanalistas - mas pessoalmente tenho um viés transcendente, espiritualista, pelo menos enquanto instância fenomenológica. Em palavras simples, sou do time que "acredita" (crença) que sejamos bem mais do que aquilo que conhecemos como "eu". E não falo apenas do inconsciente freudiano, hehehe.

Portanto, não sou materialista nem cético, mas próximo dos deístas. Vide as 10 afirmações deístas (vale a pena) em: http://pt.wikipedia.org/wiki/De%C3%ADsmo

O livro que citei, de Freud, é ótimo para demonstrar como criamos crendices que nos dão falsas seguranças. Como crianças que aguardam o papai noel, como o índio que acredita na lua apaixonada perseguindo o sol, essas explicações "religiosas" (as que merecem as aspas) se tornam mitos de sentido. O conto-de-fadas dos adultos que cresceram, tão inseguros diante da morte e universo quanto a criança diante do porvir.

Entretanto, embora eu concorde que fantasiemos a partir da religião (e vice-versa), não sou ateu como Freud, nem cético ou determinista como a (pseudo) ciência ainda presa nas crendices e limites do método indutivo experiencial de Bacon.

Como disse (e transcrevi B. Russel para reforçar, alguém copiou aqui, sei que é meu devido às maiúsculas que digitei) essas duas posições - pseudo-ciência e pseudo-religião irrefletida do senso-comum - ainda são, como alertam David Hume e a teoria do conhecimento, "crenças".

Note que o método pseudo científico vive de indução no sensível conhecido. Digo pseudo porque a filosofia da ciência verdadeira já vai além, com Popper e falseabilidade, com Jung e sincronicidades acausais, e mais ainda com a nada-cartesiana e nada-aristotélica física quântica.

Ora, a indução é uma boa crença, mas ainda assim uma aposta, não verdade absoluta. As pessoas se esquecem que nunca tivemos a verdade, o que ontem era absoluto hoje é visto como ignorância; e muito do que já foi místico hoje é científico. Deveriamos ser mais humildes em notar que todas as nossas "verdades" atuais - religiosas e científicas, inclusive - são falseáveis amanhã. Sempre foi assim, nem eu sou o mesmo de 10 anos atrás; embora há 10 anos eu pensasse que o de 20 anos atrás é que era o ignorante. Hoje já parto da minha ignorância atual, talvez o único saber que se possa ter.

Não posso garantir que todos cisnes sejam brancos; nem que o sol nascerá amanhã só porque assim o fez nos milhares de dias que o observei. Mas é provável que haja um amanhã. Apostas, estatísticas, crenças.

Além disso, há o problema da causalidade: acreditar piamente na religião do método cientifico baconiano, que depende da reprodução das causas para medir as consequências, é o mesmo que arrogar para nós que só é verdade e conhecimento aquilo que começa e se encerra em nós; o que é, evidentemente, falso. O peixe não controla a minhoca que rompe suas águas e o mata; é impossível compreendê-la plenamente em seu universo aquático limitado. O peixe no máximo dá um pulinho fora da água e acha que esteve em um mundo astral bem sutil. "Tive um samadhi, satori, iluminação"; deve dizer aos demais: "há um mundo além das águas grosseiras desse rio". Quem é esse peixe, ignorante epistemológico, para compreender e reproduzir a minhoca do anzol? Pois a (pseudo) ciência baconiana é como um peixe que, por não conseguir compreender e reproduzir o anzol e minhoca que aparece e desaparece, passa a negá-los. Provavelmente morrerão pela boca, se não admitirem os acontecimentos ACAUSAIS - ou seja, com causa em uma realidade transcendente.

Muitos tentam explicar o que seria este transcendente. Aí nascem as apostas, dogmas e religiões. São boas explicações, mas são múltiplas. Creio que, no fundo, existem tantas religiões quanto homens. Cada um tem seu próprio modo de conexão, de "religare" ao Todo/Self/GADU/Deus/Brahman/Eu Maior/Pai-Mãe/Tao/Tupã/Alah, embora a maioria queira impor a sua aos demais - não raro em troca de módicos 10%. Não concordo ou discordo de nenhuma, porque são isso - crenças. Apostas. Dão sentido. Então valem. Por um tempo, para quem crescer.

Citei Freud dentro de um contexto, dentre outras obras que vão além de Freud. De certo modo Sigmund Freud e Nietzsche, atacam "deus", mas só acertam a Igreja. E no caso dos dois, estamos falando de uma igreja alemã do séc XIX, em uma Europa moralista; e, na Alemanha, predominantemente protestante. Portanto, separemos aqui "religião" e seus dogmas, livros e crendices variados (demasiadamente humanos, e que mudam com o tempo e se contradizem); da própria essência espiritual ou da concepção que cada um tenha - ou não - de seu deus.

Freud observa bem o caráter fantasioso e inconsciente dos ritos, mas por outro lado não captura a essência do rito e a fixação dos símbolos como linguagem viva do inconsciente. Ele nota que criamos deuses à nossa imagem e semelhança (e não o contrário), que temos no "deus" judaico-cristão uma grande projeção psíquica de um Pai coletivo, que olha, pune e recompensa suas crianças - mas não chega à profundidade de Carl Jung, Bertrand Russel, Donald Winnicott, Viktor Frankl e Joseph Campbell de se perguntar então POR QUE criamos esses deuses e fantasias, um atrás do outro, POR QUE a espiritualidade é tão indissociável da condição humana, por que há mitos tão similares em culturas tão diferentes; e o que há por trás desta organização inconsciente que o pai da psicanalise tão bem descreveu.

O homem, me parece, é um ser em busca de sentido. Somos uma ponte sobre o abismo, uma corda frágil ligando o vir-a-ser e o devir. Não basta afirmar que os objetos de crença são "mera" busca de sentido - a questão do sentido já é grande por si; um início, e não um final de explicações e indagações. Qual o sentido de se ter sentido? O que deseja aquele que apenas deseja desejar? Perguntas incômodas, mais fácil pagar 10%, rezar o terço e ser feliz sem enxergar, como faz o avestruz. E é nesse sentido que respeito muito as religiões, mesmo no "desrespeito" que minha desconstrução aparentemente faz em relação aos seus alicerces. Quando frágeis."


Lázaro Freire, via celular
Psicanalista Transpessoal
http://voadores.com.br/lazaro
http://twitter.com/LazaroFreire

*Lázaro Luiz Trindade Freire (Araxá, 3 de novembro de 1964) é um psicanalista, escritor e filósofo brasileiro. Ministra cursos e escreve colunas sobre espiritualismo universalista, temas junguianos, psicanálise  e psicologia transpessoal. É também engenheiro de software e músico. Fundou no ano de 2000 o Grupo Voadores, com sede em São Paulo e grupos independentes de estudos filosófico-espirituais por todo o país, além de Inglaterra e Japão; o qual mantém a maior lista de discussão mundial na internet  sobre viagem astral e espiritualidade (cerca de 7.300 membros ativos, 30.000 associados históricos e 100.000 mensagens - dados de 2009), onde é colunista e moderador.

9 comentários:

  1. É !!! NÃO ENTENDÍ BULUFAS,E TAMBÉM NÃO SOU E NEM BUSCO NADA DISSO, MAS, UMA COISA NÃO POSSO NEGAR; ESSE LÁZARO Lê BASTANTE AlÉM DE ESCREVER. FICO IMAGINANDO UM AMIGO DE UM CARA DESSES, CERTAMENTE SUA PACIÊNCIA TERÁ QUE SER DE JÓ PRA AGUENTAR.
    E EU, O QUE SOU?
    SÓ sei que não sou psicanalista,NEM escritor e NEM filósofo brasileiro. NÃO MinistrO cursos e NÃO escrevO colunas sobre espiritualismo universalista, temas junguianos, psicanálise e psicologia transpessoal. É também NÃO SOU engenheiro de software e NEM músico (SÓ NO BANHEIRO). NÃO FundEI no ano de 2000 o Grupo Voadores (APESAR DE VOAR NA MAIONESE), com sede em São Paulo e grupos independentes de estudos filosófico-espirituais por todo o país, além de Inglaterra, Japão, BOM JESUS DO GALHO, VERMELHO VELHO, SANTANA DO TABULEIRO, BAR DO JANELÃO, BAR DO CLEBER NO VERMELHO VELHO; o qual NÃO mantENHO a maior lista de discussão mundial na internet sobre viagem astral e espiritualidade (cerca de 7.300 membros ativos E INOPERANTES, 30.000 associados históricos e 100.000 mensagens - dados de 2009), onde NÃO SOU E NEM QUERO SER é colunista e moderador. QUANTO QUE ESTE CARA GANHA?
    UFA QUE CANCEIRA....FICOU ATÉ CHIQUE, MAS O PASCOAL NÃO VAI POSTAR, POR FAVOR PASCOAL POSTA AÍ...

    CAS
    bh/mg

    ResponderExcluir
  2. PUTS "CAS" TE ACHEI ESCRITOR PRA CARAMBA,VOCÊ BRINCA COM AS PALAVRAS E NÃO SE PERDE DO ASSUNTO,ADOREI E OLHA QUE DESSES ASSUNTOS DE APROFUNDAMENTOS FILOSÓFICOS EU NÃO GOSTO DE LER PORQUE MINHA CABEÇA FICA CONFUSA E DE CONFUSÃO JÁ CHEGA A MINHA VIDA!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  3. eh anonimo das 18:09, voce não percebeu que ele só copiou a biografia do Lázaro e colocou um não antes das palavras... assim até eu faço.

    ResponderExcluir
  4. CUIDADO GENTE,ESSES AÍ VIERAM AO MUNDO FOI PRA DÁ NÓ NOS NEURENI DOS OUTROS,SARTA FORA QUE É RABO!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  5. Olá, amigos.
    Não tive intenção de romper os limites de vossos neurônios, nem de ostentar erudição. Respondi a um colega de vocês - via tecladinho de celular - apenas porque ele perguntou; considerem uma delicadeza, não uma agressão. ;-)
    Concordo que esse texto faz mais sentido em resposta ao outro, que não era nada difícil. Esse é um aprofundamento e esclarecimento porque foi isso que pediram; além de esclarecer os que defendiam a ciência empírica cega.
    Por lei, nossos filhos hoje tem aulas de filosofia no "segundo grau". O que falo não é "nó no cérebro", é coisa que a molecada faz melhor que nós - assim como computadores e videogames. Não se ensina a pensar sem pensar; e só posso escrever para quem saiba ler.
    Pra quem imaginou como seria minha vida pessoal a partir da leitura de um meu
    texto simples isolado, admiro tamanha clarividência, rs, será um forte concorrente à mãe Dináh, hehehe. Mas não seria mais fácil dar uma olhadinha em meu Orkut, Twitter ou Facebook? Adianto que tenho muitos amigos, bebo, toco, transo, trabalho, conto piadas - e, pasmem, nada disso me impede de pensar, uai! ;-)

    ResponderExcluir
  6. Esses assuntos deveriam ser colocados em discussão mais vezes. Raul Soares precisa descobrir que existem mais coisas além de igrejas, bíblia, missas, cultos e etc... O universo é composto e regido por leis claras que vão além da religião. Pensando bem, a palavra "religião" não tem tido o efeito pelo qual significa, né!? O verbo "religare" não é conjugado em 99,99999% das religiões existentes, porque na real, ao contrário de unir, religar, as religiões tem causado divisão na humanidade. Meu pensamento é que as religiões são como forcas, por isso não coloco minha cabeça em nenhuma delas.
    Breno Miranda Ferreira

    ResponderExcluir
  7. Que que é isso!
    Seu Lázaro vamos entender O que, que é isso!

    ResponderExcluir
  8. Acredito que o autor precisa se aprofundar mais no método científico moderno. Aristóteles? Descartes? Bacon?

    A ciência precisa, sim, de comprovação prática, é isso que ela propõe fazer: explicar o Universo conforme nossas percepções.

    Se isso é "verdade" (quem sabe o que é a verdade? nao sou eu o primeiro a perguntar) ou não, não é assunto da ciência.

    No entanto, os fatos observados não são engolidos crus, pois a natureza responde "sim" ou "não" quando quer apenas dizer "talvez".

    ResponderExcluir
  9. Pô, Lázaro, pega leve! Não "frita" os neurônios da rapaziada não... :-)

    Mas obrigado por compartilhar esse conhecimento. Seu texto está PERFEITO! Parabéns!

    ResponderExcluir

Todos os comentários são moderados e não serão aceitas mensagens consideradas inadequadas.